Por Hermes C. Fernandes
Não tenho nada contra a maneira como as Escrituras foram organizadas em
capítulos e versículos. Mas alguém aí avisa à turma que o texto original
não era assim. Tais divisões ajudam na localização e memorização das
passagens, mas ao mesmo tempo, acabam nos privando de uma compreensão
mais ampla daquilo que o autor pretendia dizer.
Por exemplo: você já notou que alguns capítulos das espístolas paulinas
(de autoria de Paulo) começam com a conjunção "portanto"? Só para
relembrar aquela aulinha de português que talvez tenhamos perdido ou
simplesmente deletado de nossa mente: A conjunção "portanto" é utilizada
para iniciar uma oração que inclui uma conclusão de uma ideia ou
raciocínio explicitado na oração anterior.
Sempre que uma oração começa com esta conjunção, temos que considerar o
que fora dito antes. Sem seu contexto, a oração perde grande parte de
seu significado original.
Permita-me um exemplo extraído dos escritos de Paulo:
"Portanto, rogo-vos, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional." Romanos 12:1
Conquanto conheçamos bem esta passagem, pois tem sido citada fartamente
em nossos cultos e devocionais, só compreenderemos a extensão e
profundidade do seu sentido se levarmos em conta o seu contexto. Depois
de uma vasta explanação sobre a soberania de Deus e Sua inexplicável
graça, Paulo se vê tomado por uma êxtase que resulta numa das mais belas
composições registradas no Novo Testamento.
"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão insodáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele e para ele são todas as coisas. Glória, pois, a ele eternamente. Amém." Romanos 11:33-36
Qualquer ortodoxia que não desague neste tipo de doxologia não passa de
presunção humana travestida de doutrina cristã. "Ortodoxia" significa
"reta doutrina", enquanto que "doxologia" quer dizer louvor.
A teologia não pode ser vista como uma dissecação do sagrado. Um Deus
que se submete a uma autopsia só pode estar morto, como afirmou
acidamente Firedrich Nietzsche. Quando falamos de Deus estamos em
terreno sagrado, o que requer de nós toda reverência. Jamais esgotaremos
o assunto. Dizer-se "doutor em divindade" chega a ser um insulto. O
Deus das Escrituras sempre escapa às definições que os homens intentam
lhe atribuir. Nenhum estrutura é capaz de contê-lo. As Escrituras
afirmam que nem o céu dos céus pode comportá-lo.
Diante deste mysterium tremendus, calamo-nos ou deixamos escapar um "uau!". Levemos a sério a advertência divina: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus!" (Sl.46:10). Estamos
falando de algo tão profundo que a mente humana é incapaz de
perscrutar. Seus caminhos são imprevisíveis. Sua mente, insondável.
Trata-se de um Ser que não pode ser domesticado. Neste sentido, Ele é um
Deus selvagem, que age com absoluta soberania, e não deve explicação a
ninguém.
O hino composto pelo apóstolo termina dizendo que todas as coisas são
d'Ele, por Ele e para Ele. Isto é: tudo quanto há em todo o Universo é
de propriedade exclusiva d'Ele, tem n'Ele sua origem e alvo de sua
existência. Ele é a causa e a razão de tudo. A ciência pode tentar
responder a certas questões como "o quê", "como", "quando", "onde". Mas
ela jamais conseguirá responder as mais importantes de todas as
questões: "Por quê?" e "Para quê"?
Como não ficar extasiado diante de tamanha sabedoria? Nossa compreensão
acerca das coisas de Deus equivale a uma gota do oceano. Estamos todos
no B+A=BA, engatinhando, balbuciando palavras. Nem a eternidade seria
suficientemente longa para que lográssemos compreender a mente de Deus.
É diante deste fato monumental que Paulo nos conclama, rogando para que
nos apresentemos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. O pouco
que sabemos somado ao imenso oceano que ignoramos devem impulsionar-nos
a adoração. A palavra escolhida por Paulo para representar o culto que
devemos prestar a Deus é "sacrifício", que é a junção de duas outras
palavras: sacro + ofício. Não é uma atividade qualquer, um hobby,
um passatempo. É a razão de nossa existência. Fomos criados para isso. E
repare na ênfase dada à qualidade deste "sacro-ofício"que devemos
oferecer a Deus. Ele deve ser vivo, santo e agradável. Vivo porque todas
as coisas são d'Ele. Ele é a fonte primeva de toda a vida. Deve ser
santo porque todas as coisas existem por Ele. Não há santidade em nós
mesmos. Ser santo é viver por Ele, é ser canal através do qual Sua vida
flui no mundo. E finalmente, nosso sacrifício deve ser agradável porque
vivemos para Ele. Pecado é viver para si. Desde que nos convertemos,
tomamos a contramão do mundo. Deixamos de viver para nós, para viver
para Ele. O importante não é a nossa satisfação pessoal, mas agradá-lo
em tudo.
O culto que oferecemos não é apenas emocional, mas, sobretudo, racional.
Isto é, envolve inteiramente a nossa razão. Antes de sermos
convertidos, somos convencidos pelo Espírito Santo. Foi Jesus quem disse
que o Espírito nos convenceria do pecado, do juízo e da justiça. Ele
nos persuadiu. Fomos vencidos por Seus argumentos. Nossa fé, apesar de
muitas vezes parecer contrariar à lógica humana, não é irracional. Ela
faz sentido.
Em seguida, Paulo diz:
"E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Romanos 12:2
Já que o nosso Deus vai além de qualquer definição humana, somos
convidados a tomá-lo como exemplo, não permitindo que o mundo nos
domestique, rotule, defina, ajuste aos seus padrões.
Não conformar-se é não ajustar-se às formas do mundo. Negamo-nos a ser engrenagens deste sistema corrompido.
Ao conformar-nos, deixamos que o mundo nos rotule. Trata-se de um
mecanismo de controle. Quando rotulados, sabemos exatamente o que o
mundo espera de nós, e passamos a viver dentro dessas expectativas.
O reino de Deus tem muito mais a ver com cuidado do que com controle.
Deus não precisa nos "controlar" no sentido de uniformizar-nos. Somente
um Deus soberano seria capaz de promover o alcance de todos os Seus
propósitos sem lançar mão de controlar os Seus agentes. Um Deus soberano
não se sente ameaça pela liberdade dos Seus filhos. Ainda que não
sejamos livres para arbitrar, somos livres para agir. Esta é a diferença
entre livre arbítrio e livre agência. Liberdade implica
responsabilidade. Como poderíamos ser responsáveis por nossos atos sem
que agíssemos com liberdade?
O mundo tenta nos uniformizar, tornando-nos pessoas previsíveis,
estatisticamente controladas. A proposta do Evangelho rompe com qualquer
tipo de controle, conferindo-nos a possibilidade de sermos autênticos.
Nosso culto é legítimo quando é fruto de uma consciência transformada.
Um culto mecânico, artificial, é incapaz de agradar a Deus. Robôs não
poderiam adorá-lo em espírito e em verdade.
Em vez de nos conformar, somos conclamados a sermos transformados. Ora,
transformar é extrapolar as bordas, rebelando-se contra os padrões
impostos. Tal transformação não se dá externamente, mas no ambiente do
coração. Ainda que reflita no exterior, ela ocorre no íntimo, fora do
alcance dos olhos. Nosso entendimento precisa ser reciclado, renovado.
Somente assim experimentaremos a boa, agradável e perfeita vontade de
Deus.
Boa por ser d'Ele, não nossa. Agradável porque é por Ele, não por nós. Perfeita porque é para Ele e não para nós mesmos.
Vi lá no: http://www.hermesfernandes.com/

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