por Zé Luís
Uma
coisa leva a outra; lendo “História do Cerco de Lisboa” de José
Saramago, acabei encontrando uma citação contida da obra de Francis
Bacon, sujeito que viveu lá pelos idos de 1500. Embora seja considerado
pai da metodologia científica, conta a lenda que ele foi a pessoa a
alcançar o nível mais alto dentro da AMORC (Rosa Cruz, uma ordem secreta
e mística que até hoje mantém suas “lojas”). Um místico cientista,
controverso para os dias atuais.
Saramago citou dentro de seu
livro um trecho da obra “Novum Organum” que falava sobre quatro tipos de
erros comuns(o personagem do texto de Saramago é um revisor de textos):
Idola tribus, Idola specus, Idola fori, Idola theatri.
A grosso modo:
Idola = erro.
(antes
que alguém tente achar alguma teologia com a palavra em latim,
associando a “idolatria”, abominada no judaico cristianismo, vale a
pena ressaltar que esta herda dos radicais gregos eidolon + latreia,
onde eidolon seria melhor traduzido por "corpo", e latréia significando
"adoração". Neste sentido representaria mais uma adoração às aparências
corporais do que de imagens simplesmente, tornando muitos evangélicos
grandes idolatras, triste descoberta).
Idola tribus são os
erros da natureza humana, o que os cristãos chamam de natureza caída,
nosso exagero em julgar, segundo padrões adquiridos, permitindo que
nossos pré-conceitos e paixões – muitas vezes – insanas nos guiem em
nosso objetivo (e que muitas vezes, fruto de uma bobagem que começamos a
perseguir em um tempo onde não sabíamos nem amarrar os sapatos).
Idola Specus tem relação ao entendimento pessoal,
a forma que cada pequeno item desse mundo cai na consciência -e
inconsciente – do indivíduo. Em um culto, por exemplo, veremos numa
pequena sala com cinquenta pessoas, a mesma informação ser recebida das
formas mais diversas e com as reações mais inusitadas.
Idola fori: erros que
dizem respeito a linguagem. Mesmo dentro do mesmo idioma, existe uma
clara distinção de compreensão dependendo da região onde está. Não falo
apenas de, por exemplo, Portugal e Brasil, ou mesmo nas regiões sul,
sudeste ou nordeste, mas na forma que a palavra é trazida. Um palavrão
pode causar riso ou repúdio, de acordo com a formação lingüística do
meio em que o indivíduo formou-se. A coisa se estende até dentro de uma
pequena relação, onde um fala "A" o outro, que entendeu "B", responde
"C". Uma babel...
Idola theatri tem
relação aos erros de sistema, onde regras são estabelecidas sem
percebermos a real conseqüência da mesma, pena de morte, presídios
abarrotados de gente que sai muitas vezes pior do que entrou, a
necessidade do prazer humano movimentando industrias como a
pornográfica (aqueles jovens são nossos filhos ou poderiam ser), o
tráfico, que arma os morros, e que produz mais indivíduos aptos a
lotarem os presídios, que os tornarão piores pelo ambiente em que serão
inseridos. O mundo jaz no maligno e, verificar o sistema implantado
neste só reforça que ele fez bem seu trabalho maldito.
Diante desta realidade
constatada, não sobra pergunta que não seja: como chegamos até aqui?
Como sobrevivemos a nós mesmos durante tanto tempo?
“Diz o idiota em sua alma: Deus não existe...”
diz o salmista logo no primeiro versículo do Salmo 14. Creio que este,
após ter vislumbrado a fragilidade na qual vivemos, palha que se espalha
pelo vento, que pela manhã é flor e a tarde se torna mato seco, não
obteve resposta alguma que não seja:
“Se não fora o Senhor que esteve ao nosso lado...” ou mesmo “Volta Jesus!!”
Como
não ficar impressionado como algo tão capaz de falhar sobreviva por
tanto tempo. Todo esse caos que somos, causamos e perpetuamos, não nos
extingue (embora não falte quem nos mostre que estamos a caminho disso).
O plano perfeito é esse: que no
final da imensa e trágica peça teatral em que estamos inseridos, o Autor
dela - e que de forma magistral o preserva - se apresente para que
possamos aplaudi-lo ou vaia-lo, selando assim nosso destino.

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